Saudades do Aldir

Saudades do Aldir

A galera que é um pouco mais velha do que eu branda sempre que a maior dupla foi Bebeto e Romário. Conquistar uma copa do mundo depois de 24 anos na fila não é pouca coisa.

Há quem lembre muito bem de Ricardo e Emanuel; Alison e Bruno; Sandra e Jaqueline ou até mesmo sem ouro olímpico mas na lembrança de todos Adriana Behar e Shelda no vôlei de praia.

Nenhuma dupla sertaneja, pop, ou cancioneira chega perto, nem mesmo Kleiton e Kledir, que na música “Paixão” tem versos inesquecíveis. E me perdoem os fãs de Sandyjunior…

Talvez as duplas que chegaram mais perto foram Garrincha e Pelé, os quais nunca perderam uma partida jogando juntos; João Nogueira e Paulo César Pinheiro, de músicas inesquecíveis. Entretanto, todos os citados fizeram obras juntos, separados, se encontraram em algum momento e “ok”.

A maior dupla Brasileira é João Bosco e Aldir Blanc! Não que não funcionassem separados. Tiveram uma vasta contribuição para muitos encantamentos. Mas o que fizeram juntos não está no gibi.

Suas músicas ainda são atuais, ainda ecoam. Ronco da Cuíca, um acorde aberto e as frases que se repetem e se completam em sentido:

“A raiva dá pra parar, pra interromper

A fome não dá pra interromper

A raiva e a fome é coisa dos home

A fome tem que ter raiva pra interromper

A raiva e a fome de interromper

A fome e a raiva é coisa dos home”

E vai ter que Roncar! Não vivi os tempos de chumbo, mas toda a distopia do desgoverno em curso nos faz sofrer igual. Ainda morremos de tristeza, de fome e da polícia. Quero cantar como passado:

“E nuvens lá no mata-borrão do céu

Chupavam manchas torturadas

Que sufoco”

E canto como um mantra para não perder a cabeça:

“Mas sei que uma dor assim pungente

Não há de ser inutilmente

A esperança

Dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha

Pode se machucar”

Não perdi a esperança equilibrista. E falar de todas as outras é chover no molhado. Mas seguimos daqui, do lado certo da história! Com quem canta:

“Glórias a todas as lutas inglórias

Que através da nossa história

Não esquecemos jamais

Salve o Almirante Negro!”

Música que meus pais me ensinaram criança, depois de uma aula sobre a revolta da chibata, e nunca mais parei de cantar.

Obrigado Aldir, por ser meu passatempo, minha música de reuniões, meu assunto com pessoas, minha inveja de escrever, minha inspiração, minha voz contra as injustiças.

Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1946 — Rio de Janeiro, 4 de maio de 2020

Aldir que virou lei e continua servido de subsídio para a cultura brasileira. A lei de auxílio para os músicos e artistas desempenharem projetos na pandemia. Aldir se despede com o seu acerto com o tempo:

“No fundo é uma eterna criança

Que não soube amadurecer

Eu posso, ele não vai poder

Me esquecer”

E reli seus livros e contos. A eterna criança da tijuca, que escreveu sobre o quintal de vó, sobre seu avô, sobre se encantar com a vida e viver com o peito aberto junto a seus amores. Aldir ainda está vivo, nas músicas, na lei, nos livros. Ainda está jovem em sua obra.

( Pedro Santos é professor de Educação Física em Paraty, militante negro e podcaster do “Um programa qualquer”.)

A galera que é um pouco mais velha do que eu branda sempre que a maior dupla foi Bebeto e Romário. Conquistar uma copa do mundo depois de 24 anos na fila não é pouca coisa.

Há quem lembre muito bem de Ricardo e Emanuel; Alison e Bruno; Sandra e Jaqueline ou até mesmo sem ouro olímpico mas na lembrança de todos Adriana Behar e Shelda no vôlei de praia.

Nenhuma dupla sertaneja, pop, ou cancioneira chega perto, nem mesmo Kleiton e Kledir, que na música “Paixão” tem versos inesquecíveis. E me perdoem os fãs de Sandyjunior…

Talvez as duplas que chegaram mais perto foram Garrincha e Pelé, os quais nunca perderam uma partida jogando juntos; João Nogueira e Paulo César Pinheiro, de músicas inesquecíveis. Entretanto, todos os citados fizeram obras juntos, separados, se encontraram em algum momento e “ok”.

A maior dupla Brasileira é João Bosco e Aldir Blanc! Não que não funcionassem separados. Tiveram uma vasta contribuição para muitos encantamentos. Mas o que fizeram juntos não está no gibi.

Suas músicas ainda são atuais, ainda ecoam. Ronco da Cuíca, um acorde aberto e as frases que se repetem e se completam em sentido:

“A raiva dá pra parar, pra interromper

A fome não dá pra interromper

A raiva e a fome é coisa dos home

A fome tem que ter raiva pra interromper

A raiva e a fome de interromper

A fome e a raiva é coisa dos home”

E vai ter que Roncar! Não vivi os tempos de chumbo, mas toda a distopia do desgoverno em curso nos faz sofrer igual. Ainda morremos de tristeza, de fome e da polícia. Quero cantar como passado:

“E nuvens lá no mata-borrão do céu

Chupavam manchas torturadas

Que sufoco”

E canto como um mantra para não perder a cabeça:

“Mas sei que uma dor assim pungente

Não há de ser inutilmente

A esperança

Dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha

Pode se machucar”

Não perdi a esperança equilibrista. E falar de todas as outras é chover no molhado. Mas seguimos daqui, do lado certo da história! Com quem canta:

“Glórias a todas as lutas inglórias

Que através da nossa história

Não esquecemos jamais

Salve o Almirante Negro!”

Música que meus pais me ensinaram criança, depois de uma aula sobre a revolta da chibata, e nunca mais parei de cantar.

Obrigado Aldir, por ser meu passatempo, minha música de reuniões, meu assunto com pessoas, minha inveja de escrever, minha inspiração, minha voz contra as injustiças.

Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1946 — Rio de Janeiro, 4 de maio de 2020

Aldir que virou lei e continua servido de subsídio para a cultura brasileira. A lei de auxílio para os músicos e artistas desempenharem projetos na pandemia. Aldir se despede com o seu acerto com o tempo:

“No fundo é uma eterna criança

Que não soube amadurecer

Eu posso, ele não vai poder

Me esquecer”

E reli seus livros e contos. A eterna criança da tijuca, que escreveu sobre o quintal de vó, sobre seu avô, sobre se encantar com a vida e viver com o peito aberto junto a seus amores. Aldir ainda está vivo, nas músicas, na lei, nos livros. Ainda está jovem em sua obra.

( Pedro Santos é professor de Educação Física em Paraty, militante negro e podcaster do “Um programa qualquer”.)

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