Resenha: Torto Arado

Resenha: Torto Arado

Torto Arado: A educação pela terra
Escrito por Rodolfo Teixeira Alves 

Torto Arado, romance de Itamar Vieira Junior lançado no Brasil em agosto de 2019 pela editora Todavia, atingiu, em fevereiro deste ano, a marca de 70 mil exemplares vendidos, entre versão física e digital. É o livro do momento, comentado nas redes sociais, podcasts e revistas e sites especializados em literatura. Tem até hashtag no Instagram (#tortoarado), que não para de acumular fotos e vídeos, postados por pessoas comuns e algumas celebridades, como o presidente Lula. O livro vem colecionando prêmios, como LeYa (2018), Jabuti (2020) e Oceanos (2020), e ocupa as listas de livros mais vendidos no Brasil, encabeçando a seção de “ficção” da PublishNews (entre 15/2/2021 a 21/2/2021). Embora recém nascido, tem quem já o considera um livro clássico. E motivos não faltam. É a literatura nacional pulsando da melhor forma.

Torto Arado é um livro de peso, recomendado aos montes, e pegar para ler dá uma sensação estranha de querer começar e não querer terminar. Ou de querer terminar logo para saber o desfecho da história e, de imediato, depois de imergir nas suas 262 páginas, retorna às primeiras para uma releitura, para ver se nenhum detalhe passou despercebido. Lá quando Itamar Vieira Junior nos apresenta as irmãs Bibiana e Belonísia, uma mala, uma faca enrolada em um tecido manchado de sangue, e nos convida a acompanhar sua narrativa primorosa que costura trajetórias de vida e encantarias, que se cruzam em um história de corpos marcados pelo trabalho, pela terra, pela violência e resistência, mas também pelo amor, sabedorias de terreiro e ancestralidade.

E por isso, entre outros motivos, Torto Arado é um livro clássico: pelo desejo de ler e reler; das inúmeras possibilidades de leitura, sempre ressaltando um aspecto que gera discussões além do livro; por apresentar, pela ficção, elementos que o autor chama de “Brasil profundo”, marcado por violência rural (e também urbana) e desigualdades históricas como heranças de um país escravocrata e garantista dos privilégios senhoriais. Isso sem perder de vista a mobilização e luta por parte dos trabalhadores rurais e quilombolas. Não espere uma narrativa de violência com personagens que sofrem passivos à espera de justiça que vem do além. Torto Arado é um livro sobre organização, sobre usar os recursos disponíveis para resistir e lutar, sobre a força da espiritualidade dos encantados que assumem os corpos. A vida é dinamizada com rezas, espíritos e feitiços, com trabalho na terra e com a terra, e as mãos que fazem roça e coivara, também fazem justiça.

Torto Arado apresenta personagens fortes e um universo feminino, a exemplo das irmãs Bibiana e Belonísia, que trazem a força da mãe, Salustiana, e da avó, Donana. A presença da encantada Santa Rita Pescadeira, Preta Velha, que traz consigo memórias de sofrimento de outros tempos e corre o mundo em seus cavalos, como o copo de Dona Miúda. Mas não é um universo feminino que se limita ao ambiente doméstico, como se houvesse uma divisão rígida entre casa e trabalho. A imagem mais forte, nesse aspecto, é quando descobrimos que Donana pariu seu filho, sozinha, enquanto trabalhava no canavial. E mesmo quando a narrativa se desdobra no ambiente doméstico, as atividades desenvolvidas pelas mulheres são marcadas como trabalho, como os cuidados da roça da família, que é essencial para sua alimentação.

O romance de Itamar Vieira Junior narra as trajetórias de vida de uma comunidade quilombola formada na fazenda Água Negra, próximo à Chapada Velha. Itamar nasceu em Salvador (BA) em 1979. É geógrafo de formação, e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. Seu livro traz muito de sua própria trajetória de vida e profissional, de sua atuação pelo INCRA na região da Chapada Diamantina, Bahia, como relatou no programa Roda Vida da TV Cultura em fevereiro deste ano.

O seu retrato do “brasil profundo” não tem um marco temporal, não sabemos se estamos lendo uma história que trata do passado, do presente ou mesmo do futuro do Brasil. Talvez um entrelaçamento dessas dimensões, quando pensamos nessas violências e desigualdades como heranças de um país escravocrata, que se apresenta sempre com novas roupagens, como estamos vendo hoje. E como Torto Arado não tem um desfecho, vale o spoiler, talvez se trate também do futuro. Um futuro que, desde agora, com a força da ancestralidade, faz da justiça e luta por direitos um trabalho contínuo, com os recursos que nos temos, na calada da noite, abrindo armadilhas para nossos algozes. Como ensina, no livro, o velho Zeca Chapéu Grande: “[…] se a gente não se movimenta, não tem vida”.

Rodolfo Teixeira Alves – Sou antropólogo (UFRJ) e aspirante no jornalismo (UERJ). Talvez um literato frustrado, ainda não estou certo disso. Falo e pesquiso alimentação e cidade. Vivo e estudo o Rio de Janeiro.

Escrito por Rodolfo Teixeira Alves

Torto Arado, romance de Itamar Vieira Junior lançado no Brasil em agosto de 2019 pela editora Todavia, atingiu, em fevereiro deste ano, a marca de 70 mil exemplares vendidos, entre versão física e digital. É o livro do momento, comentado nas redes sociais, podcasts e revistas e sites especializados em literatura. Tem até hashtag no Instagram (#tortoarado), que não para de acumular fotos e vídeos, postados por pessoas comuns e algumas celebridades, como o presidente Lula. O livro vem colecionando prêmios, como LeYa (2018), Jabuti (2020) e Oceanos (2020), e ocupa as listas de livros mais vendidos no Brasil, encabeçando a seção de “ficção” da PublishNews (entre 15/2/2021 a 21/2/2021). Embora recém nascido, tem quem já o considera um livro clássico. E motivos não faltam. É a literatura nacional pulsando da melhor forma.

Torto Arado é um livro de peso, recomendado aos montes, e pegar para ler dá uma sensação estranha de querer começar e não querer terminar. Ou de querer terminar logo para saber o desfecho da história e, de imediato, depois de imergir nas suas 262 páginas, retorna às primeiras para uma releitura, para ver se nenhum detalhe passou despercebido. Lá quando Itamar Vieira Junior nos apresenta as irmãs Bibiana e Belonísia, uma mala, uma faca enrolada em um tecido manchado de sangue, e nos convida a acompanhar sua narrativa primorosa que costura trajetórias de vida e encantarias, que se cruzam em um história de corpos marcados pelo trabalho, pela terra, pela violência e resistência, mas também pelo amor, sabedorias de terreiro e ancestralidade.

E por isso, entre outros motivos, Torto Arado é um livro clássico: pelo desejo de ler e reler; das inúmeras possibilidades de leitura, sempre ressaltando um aspecto que gera discussões além do livro; por apresentar, pela ficção, elementos que o autor chama de “Brasil profundo”, marcado por violência rural (e também urbana) e desigualdades históricas como heranças de um país escravocrata e garantista dos privilégios senhoriais. Isso sem perder de vista a mobilização e luta por parte dos trabalhadores rurais e quilombolas. Não espere uma narrativa de violência com personagens que sofrem passivos à espera de justiça que vem do além. Torto Arado é um livro sobre organização, sobre usar os recursos disponíveis para resistir e lutar, sobre a força da espiritualidade dos encantados que assumem os corpos. A vida é dinamizada com rezas, espíritos e feitiços, com trabalho na terra e com a terra, e as mãos que fazem roça e coivara, também fazem justiça.

Torto Arado apresenta personagens fortes e um universo feminino, a exemplo das irmãs Bibiana e Belonísia, que trazem a força da mãe, Salustiana, e da avó, Donana. A presença da encantada Santa Rita Pescadeira, Preta Velha, que traz consigo memórias de sofrimento de outros tempos e corre o mundo em seus cavalos, como o copo de Dona Miúda. Mas não é um universo feminino que se limita ao ambiente doméstico, como se houvesse uma divisão rígida entre casa e trabalho. A imagem mais forte, nesse aspecto, é quando descobrimos que Donana pariu seu filho, sozinha, enquanto trabalhava no canavial. E mesmo quando a narrativa se desdobra no ambiente doméstico, as atividades desenvolvidas pelas mulheres são marcadas como trabalho, como os cuidados da roça da família, que é essencial para sua alimentação.

O romance de Itamar Vieira Junior narra as trajetórias de vida de uma comunidade quilombola formada na fazenda Água Negra, próximo à Chapada Velha. Itamar nasceu em Salvador (BA) em 1979. É geógrafo de formação, e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. Seu livro traz muito de sua própria trajetória de vida e profissional, de sua atuação pelo INCRA na região da Chapada Diamantina, Bahia, como relatou no programa Roda Vida da TV Cultura em fevereiro deste ano.

O seu retrato do “brasil profundo” não tem um marco temporal, não sabemos se estamos lendo uma história que trata do passado, do presente ou mesmo do futuro do Brasil. Talvez um entrelaçamento dessas dimensões, quando pensamos nessas violências e desigualdades como heranças de um país escravocrata, que se apresenta sempre com novas roupagens, como estamos vendo hoje. E como Torto Arado não tem um desfecho, vale o spoiler, talvez se trate também do futuro. Um futuro que, desde agora, com a força da ancestralidade, faz da justiça e luta por direitos um trabalho contínuo, com os recursos que nos temos, na calada da noite, abrindo armadilhas para nossos algozes. Como ensina, no livro, o velho Zeca Chapéu Grande: “[…] se a gente não se movimenta, não tem vida”.

Rodolfo Teixeira Alves – Sou antropólogo (UFRJ) e aspirante no jornalismo (UERJ). Talvez um literato frustrado, ainda não estou certo disso. Falo e pesquiso alimentação e cidade. Vivo e estudo o Rio de Janeiro.

Torto Arado

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