Egito Negro

Egito Negro

Egito Negro

Livraria Casa da Árvore – Pedro Santos – Janeiro 14,2021

A ideia para o primeiro texto veio quando minha mãe falou a frase recorrente no verão
carioca: “Que calor de cão”. Cão nesse caso não é um dog, não é “o melhor amigo do
homem”, vem da constelação de Cão, a estrela Alfa de Cão (α Alfa Canis Majoris) ou
também conhecida estrela Sírios. Esta estrela iluminada indica o começo do solstício de
verão no hemisfério norte. Muita gente atribui à Grécia e Roma os estudos e catalogação
dessa informação, mas isso na verdade é pesquisa, sabe de quem? De quem? Não é de
Raimundo Nonato, mas sim do Egito. Pensando nesse apagamento histórico feito pela
colonização, racismo e embranquecimento venho provar o que falei e exaltar a terra de
Salah (um outro dia eu venho provar porque prefiro Aboutrika).

Minha primeira apresentação histórica, ainda sobre Cão, é: muito antes da Europa registrar
qualquer coisa, Abul-Simbel já estava de pé. Abul-Simbel é um conjunto arquitetônico
arqueológico construído para Ramsés II e Nefertari. Dois grandes templos rupestres
escavados diretamente na rocha. Dois colossos (as estátuas no templo de Ramsés com 20
metros de altura e de Nefertari com 10 metros de altura) localizados no sul do Egito, no
banco ocidental do rio Nilo perto da fronteira com o Sudão, numa região denominada Núbia,
a cerca de 300 quilômetros da cidade de Assuão.

Os templos se voltam para o Sol e, duas vezes por ano, ele incide diretamente sobre a
escultura de Ramsés no interior do templo, iluminando-a naturalmente. Repito: Duas vezes
por ano a estátua de Ramsés dentro do templo, construído diretamente numa formação
rochosa, é iluminada naturalmente pela luz solar. Para além disso, eixos saindo do meio
dos dois templos se encontram no centro do rio Nilo. Veja bem, eixos simétricos saindo dos
templos se convergem no centro do Nilo. Exatamente nesse ponto, se alinham o Sol e a
Estrela de Cão. Além do início do Verão como disse acima, é o momento que começam as
cheias do Nilo: o anúncio de vida para a região. Não devemos esquecer da importância do
Nilo para a agricultura, transporte, irrigação, como fonte de água para o leste do Saara, para
referências bíblicas, ou para os 10 países atravessa na atualidade e sua influência na
economia de todos.

E falando de papéis fundamentais, Ramsés foi importante não só para a história da arte,
para os cursos de arqueologia do presente ou por dar nome ao vilão “Ozymandias” de
Watchmen, mas também por retomar a tradição politeísta no Antigo Egito. Aquenáton tentou
implementar o Deus Aton como única divindade, o que gerou muita insatisfação e
impopularidade. É Ramsés quem vai tornar o Egito Great Again. Devolverá o prestígio dos
Faraós e a opulência para as tumbas e eternidades da antiguidade

Embora Abul-Simbel já estivesse lá há milênios, a “descoberta” deste templo data de 1813
por europeus, mais um daqueles saqueadores que roubaram tudo que podiam do Egito e,
ainda sim, temos muita coisa no Museu do Cairo e a céu aberto. Um destaque, o qual não
será exaltação, foi o deslocamento entre 1963 e 1968 para um platô mais alto. Obras da era
Nasser para represar o Nilo obrigaram o deslocamento dos Templos (lembrando que
continua em disputa as construções de mais represas no rio Nilo, o que influencia os
demais países banhados por ele). Hoje o lago Nasser não se alinha astronomicamente
como antes, mas a paisagem continua bela.

Destaco como um exemplo de apagamento da cultura africana as afirmações de que o povo
egipcio não era preto. Há quem diga que o Egito é povoado por pessoas brancas. O norte
da África é de povos brancos (e tentam até justificar assim serem abastadas comparados
com a porção subsaariana). Não à toa representam Jesus loiro, nada condizente com os
Núbios, Ciganos, Berberies, Cabilas, Tuaregues, que habitavam a região.

Nei Lopes destaca em Seus livros Meu Lote e Dicionário da Antiguidade Africana a
importância do território de Núbia, Cuxe e Etiópia para a formação de uma civilidade. Um
primeiro exemplo que ele dá é sobre os gregos criarem seus Deus a partir de fan fic dos
Deuses egípcios. Por exemplo: “os gregos sincretizaram Toth, Deus egípicio do saber, com
o seu Hermes. Não são coincidências as similaridades dos Deuses, são inspirações, cópias
e adaptações.

Em Meu Lote, Nei responde a todos que reproduzem essas ideias irreais e baseadas no
racismo colonial sobre as sociedades da antiguidade, na formação civilizatória e da
quantidade de melanina dos faraós: “o Racismo meteu a boca nas trombetas. Sem saber
que Menés ou Narmer, o unificador, foi um negão; que vários faraós, principalmente da 18ª
eram originários da Núbia; e que uma dinastia inteira, a 25ª, que governou o país por mais
de 100 anos era constituída por faraós do país de Cuxe, tidos como ‘etíopes'”.

Ou ainda: “Com base no fato de que, nos dias atuais, alguns grupos étnicos da África
oriental e central, como tutsis, massais etc – de elevada estatura e pele escura – apresentam
o que se convencionou ver como ‘perfil gregro’ ou nariz adunco, tipo visto como ‘semítico’,
alguns antropólogos recusaram-se a enquadrar esses tipos de como negros-africanos.
Entretanto, na defesa de interesses políticos e econômicos, pensamentos da mesma linha
eurocêntrica, principalmente nos EUA, qualificam modernos afro-mestiços, mesmo com
‘perfil grego’, ‘nariz hamítico’ ou cabelos lisos, como mulatos, colored, oitavões, quadrarões
etc, pospondo-lhes, sem hesitação, o qualificavo, muitas vezes derrogatório, de ‘negros’”.

Sem falar que os europeus aprenderam matemática com os egípcios. Hipotenusa de longe
não é uma palavra grega. O colonialismo foi uma obra grandiosa de fato para apagar toda a
cultura mundial e colocar a Europa no centro dela (não só no centro do mapa). Por isso,
meu último apelo, de momento, para a cultura norte africana será uma música do Olodum.
“Faraó Divindades do Egito” voltou há alguns anos para a consciência coletiva carnavalesca
carioca, visto que foi lançada lá em 1987. Para além do refrão cativante de: “faraó, ó, ó!” e
mais: “É que mara, mara, mara, maravilha, ê! Egito, Egito, ê!”, nós temos a construção e
apresentação de uma cosmogonia africana na música. “Deuses, divindade infinita do
universo / Predominante esquema mitológico / A ênfase do espírito original, Shu / Formará
no Éden um ovo cósmico / A Emersão / Nem Osíris sabe como aconteceu”. Imerso no
fundamentalismo religioso atual essa música cada vez mais me emociona. Letra grande já é
uma afronta à miséria imposta pelo mercado fonográfico, falar em Código de Gerbi; em Nut
gerando as estrelas; casamento de Osíris e Ísis e muito mais, é então uma vitória da
memória negra e cultural. Triunfo da “mistura do Brasil com o Egito”. Celebrar as divindades
africanas, exaltar a estética preta dos baianos, filhos pretos da diáspora, não é pouca coisa.
É uma vitória da humanidade que construímos e defendemos.

Viva Ramsés II; viva Rá (Deus do Sol); viva o Nilo e Viva o Olodum!

( Pedro Santos é professor de Educação Física em Paraty, militante negro e podcaster do “Um programa qualquer”.)

A ideia para o primeiro texto veio quando minha mãe falou a frase recorrente no verão
carioca: “Que calor de cão”. Cão nesse caso não é um dog, não é “o melhor amigo do
homem”, vem da constelação de Cão, a estrela Alfa de Cão (α Alfa Canis Majoris) ou
também conhecida estrela Sírios. Esta estrela iluminada indica o começo do solstício de
verão no hemisfério norte. Muita gente atribui à Grécia e Roma os estudos e catalogação
dessa informação, mas isso na verdade é pesquisa, sabe de quem? De quem? Não é de
Raimundo Nonato, mas sim do Egito. Pensando nesse apagamento histórico feito pela
colonização, racismo e embranquecimento venho provar o que falei e exaltar a terra de
Salah (um outro dia eu venho provar porque prefiro Aboutrika).

Minha primeira apresentação histórica, ainda sobre Cão, é: muito antes da Europa registrar
qualquer coisa, Abul-Simbel já estava de pé. Abul-Simbel é um conjunto arquitetônico
arqueológico construído para Ramsés II e Nefertari. Dois grandes templos rupestres
escavados diretamente na rocha. Dois colossos (as estátuas no templo de Ramsés com 20
metros de altura e de Nefertari com 10 metros de altura) localizados no sul do Egito, no
banco ocidental do rio Nilo perto da fronteira com o Sudão, numa região denominada Núbia,
a cerca de 300 quilômetros da cidade de Assuão.

Os templos se voltam para o Sol e, duas vezes por ano, ele incide diretamente sobre a
escultura de Ramsés no interior do templo, iluminando-a naturalmente. Repito: Duas vezes
por ano a estátua de Ramsés dentro do templo, construído diretamente numa formação
rochosa, é iluminada naturalmente pela luz solar. Para além disso, eixos saindo do meio
dos dois templos se encontram no centro do rio Nilo. Veja bem, eixos simétricos saindo dos
templos se convergem no centro do Nilo. Exatamente nesse ponto, se alinham o Sol e a
Estrela de Cão. Além do início do Verão como disse acima, é o momento que começam as
cheias do Nilo: o anúncio de vida para a região. Não devemos esquecer da importância do
Nilo para a agricultura, transporte, irrigação, como fonte de água para o leste do Saara, para
referências bíblicas, ou para os 10 países atravessa na atualidade e sua influência na
economia de todos.

E falando de papéis fundamentais, Ramsés foi importante não só para a história da arte,
para os cursos de arqueologia do presente ou por dar nome ao vilão “Ozymandias” de
Watchmen, mas também por retomar a tradição politeísta no Antigo Egito. Aquenáton tentou
implementar o Deus Aton como única divindade, o que gerou muita insatisfação e
impopularidade. É Ramsés quem vai tornar o Egito Great Again. Devolverá o prestígio dos
Faraós e a opulência para as tumbas e eternidades da antiguidade

Embora Abul-Simbel já estivesse lá há milênios, a “descoberta” deste templo data de 1813
por europeus, mais um daqueles saqueadores que roubaram tudo que podiam do Egito e,
ainda sim, temos muita coisa no Museu do Cairo e a céu aberto. Um destaque, o qual não
será exaltação, foi o deslocamento entre 1963 e 1968 para um platô mais alto. Obras da era
Nasser para represar o Nilo obrigaram o deslocamento dos Templos (lembrando que
continua em disputa as construções de mais represas no rio Nilo, o que influencia os
demais países banhados por ele). Hoje o lago Nasser não se alinha astronomicamente
como antes, mas a paisagem continua bela.

Destaco como um exemplo de apagamento da cultura africana as afirmações de que o povo
egipcio não era preto. Há quem diga que o Egito é povoado por pessoas brancas. O norte
da África é de povos brancos (e tentam até justificar assim serem abastadas comparados
com a porção subsaariana). Não à toa representam Jesus loiro, nada condizente com os
Núbios, Ciganos, Berberies, Cabilas, Tuaregues, que habitavam a região.

Nei Lopes destaca em Seus livros Meu Lote e Dicionário da Antiguidade Africana a
importância do território de Núbia, Cuxe e Etiópia para a formação de uma civilidade. Um
primeiro exemplo que ele dá é sobre os gregos criarem seus Deus a partir de fan fic dos
Deuses egípcios. Por exemplo: “os gregos sincretizaram Toth, Deus egípicio do saber, com
o seu Hermes. Não são coincidências as similaridades dos Deuses, são inspirações, cópias
e adaptações.

Em Meu Lote, Nei responde a todos que reproduzem essas ideias irreais e baseadas no
racismo colonial sobre as sociedades da antiguidade, na formação civilizatória e da
quantidade de melanina dos faraós: “o Racismo meteu a boca nas trombetas. Sem saber
que Menés ou Narmer, o unificador, foi um negão; que vários faraós, principalmente da 18ª
eram originários da Núbia; e que uma dinastia inteira, a 25ª, que governou o país por mais
de 100 anos era constituída por faraós do país de Cuxe, tidos como ‘etíopes'”.

Ou ainda: “Com base no fato de que, nos dias atuais, alguns grupos étnicos da África
oriental e central, como tutsis, massais etc – de elevada estatura e pele escura – apresentam
o que se convencionou ver como ‘perfil gregro’ ou nariz adunco, tipo visto como ‘semítico’,
alguns antropólogos recusaram-se a enquadrar esses tipos de como negros-africanos.
Entretanto, na defesa de interesses políticos e econômicos, pensamentos da mesma linha
eurocêntrica, principalmente nos EUA, qualificam modernos afro-mestiços, mesmo com
‘perfil grego’, ‘nariz hamítico’ ou cabelos lisos, como mulatos, colored, oitavões, quadrarões
etc, pospondo-lhes, sem hesitação, o qualificavo, muitas vezes derrogatório, de ‘negros’”.

Sem falar que os europeus aprenderam matemática com os egípcios. Hipotenusa de longe
não é uma palavra grega. O colonialismo foi uma obra grandiosa de fato para apagar toda a
cultura mundial e colocar a Europa no centro dela (não só no centro do mapa). Por isso,
meu último apelo, de momento, para a cultura norte africana será uma música do Olodum.
“Faraó Divindades do Egito” voltou há alguns anos para a consciência coletiva carnavalesca
carioca, visto que foi lançada lá em 1987. Para além do refrão cativante de: “faraó, ó, ó!” e
mais: “É que mara, mara, mara, maravilha, ê! Egito, Egito, ê!”, nós temos a construção e
apresentação de uma cosmogonia africana na música. “Deuses, divindade infinita do
universo / Predominante esquema mitológico / A ênfase do espírito original, Shu / Formará
no Éden um ovo cósmico / A Emersão / Nem Osíris sabe como aconteceu”. Imerso no
fundamentalismo religioso atual essa música cada vez mais me emociona. Letra grande já é
uma afronta à miséria imposta pelo mercado fonográfico, falar em Código de Gerbi; em Nut
gerando as estrelas; casamento de Osíris e Ísis e muito mais, é então uma vitória da
memória negra e cultural. Triunfo da “mistura do Brasil com o Egito”. Celebrar as divindades
africanas, exaltar a estética preta dos baianos, filhos pretos da diáspora, não é pouca coisa.
É uma vitória da humanidade que construímos e defendemos.

Viva Ramsés II; viva Rá (Deus do Sol); viva o Nilo e Viva o Olodum!

( Pedro Santos é professor de Educação Física em Paraty, militante negro e podcaster do “Um programa qualquer”.)

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