Ciclo do Chocolate, Doce para quem pode comprar, amargo para quem trabalha.

Ciclo do Chocolate, Doce para quem pode comprar, amargo para quem trabalha.

Ciclo do Chocolate, Doce para quem pode comprar, amargo para quem trabalha.

 

Em 6 de Março 1957, “Costa do Ouro” conquista sua independência, e os descendentes Axante e Bono trocam o nome de sua nação para “Gana” (guerreiro em língua local). Sendo o primeiro da porção subsaariana, esse acontecimento é importante para as lutas de independência africana e fundamental para as correlações de força. Duas ex-colônias não trocaram seu nome em suas lutas por independência: Costa do Marfim e Brasil. Essas e outras “semelhanças” trágicas entre essas nações a partir da invasão europeia serão o tema do texto subsequente.

 

A tradição católica, espalhada com o colonialismo, nos deu por exemplo as datas de: carnaval, a quaresma e a Páscoa. A “semana santa” é parte do calendário nacional dos dois países. Tal tradição exótica não era praticada pelos povos autóctones africanos e ameríndios. O processo de “civilização” do capitalismo não só apagou as tradições originárias como batizou os países com os produtos extraídos de suas terras com tanta crueldade e extermínio. O território foi reduzido à extração de Pau Brasil e dentes de elefantes enquanto chacinava e/ou escravizava seus povos.

 

Ainda sobre a tradição católica/mercadológica, o domingo de Páscoa é o dia de dar ovos de chocolate. O chocolate vem do cacau que é originário da bacia amazônica, mas foi “descoberto” pelos europeus na América Central em seu processo de colonização. O cacau já era usado em bebidas e rituais na Mesoamérica, entretanto atribuem a popularização do chocolate e sua forma de doce ao suíço Henri Nestlé (1814-1890). Sendo assim, as plantações de cacau na África só começaram a se expandir no período de neocolonialismo e da intensificação da exploração das então colônias africanas. E mesmo com a independência declarada, o sistema capitalista e capitalista dependente mantém os países africanos como os maiores produtores de cacau do planeta e as multinacionais recebem os lucros do chocolate.

 

Costa do Marfim e Gana, de cujas costas saem por mar mais de 60% do cacau consumido em todo o planeta, tentam disputar com as multinacionais uma valorização de sua mão de obra. Enquanto as plantações batem recorde de safras, os trabalhadores não recebem 2.300 euros por tonelada e a indústria fatura 90 bilhões de euros por ano, dos quais os distribuidores e fabricantes ficam com quase 80% do lucro, já os agricultores com 4%. Segundo o Banco Mundial (2017), 55% dos agricultores da Costa do Marfim vivem com cerca de 1,15 € por dia, abaixo da linha de pobreza absoluta. O cacau hoje é a base da economia marfinense com 15% do PIB (Produto Interno Bruto), compondo entre 30% e 50% da receita de exportação do país e com ⅔ da população tendo sua renda ligada a esta atividade agrícola.

 

Neste cenário de miséria e interdependência com essa atividade econômica, constantemente há denuncias de trabalho escravo, de violações de direitos humanos e trabalho infantil. De acordo com o relatório recente da Organização Internacional do Trabalho (dados de 2016), 152 milhões de crianças entre as idades de 5 e 17 anos estão sujeitas ao trabalho infantil. Aproximadamente, 70% desse número corresponde ao emprego da mão de obra infantil no setor agrícola. Estima-se que só no continente africano uma a cada cinco crianças africanas estejam envolvidas com o trabalho infantil. (OIT, 2017).

 

Essa realidade é ainda mais intensa na Costa do Marfim, onde pelo menos 3,65 milhões de crianças vivem na zona rural. Dessas crianças, 98% representam aquelas que trabalham nas plantações de cacau e acredita-se que pelo menos a metade delas trabalhe de forma ilegal e sob condições precárias que envolvem até 12 horas de trabalho e nenhuma proteção ou legislação contra acidentes, agressões físicas e alimentação indevida. Além do trabalho ilegal, dados indicam que ainda existem crianças que trabalham nas plantações sob regime de escravidão – pelo menos 12 mil crianças se encontram nessa situação, algumas até ficam presas em cativeiros durante a noite para não poderem fugir. (LUSA, 2016; AFRICA/COSTA DO MARFIM, 2016). Sem contar o tráfico de pessoas dos países vizinhos como: Benin, Mali, Camarões, Togo, para trabalhar nas mesmas condições.

Pensem comigo, a gente aprende que certas coisas são naturais. Que o ser humano é ser humano e deve ser tratado como tal. Isso é ensinado na escola, está escrito em declarações de direitos universais e é a grande bandeira da revolução francesa. Mas é uma grande balela. A igualdade, fraternidade e irmandade é apenas para a burguesia, a classe trabalhadora, povos além Europa, racializados, não o são. Marx descreve o processo de desumanização e Losurdo frequentemente o usa. Essa luta pelo reconhecimento da humanidade é “luta de classes”. Em seu livro “a luta de classes”, Losurdo se vale dos dois revolucionários, defensores da abolição da escravatura estadunidense, para escrever: “Desde o início das hostilidades, eles solicitam combater contra o Sul uma guerra revolucionária pela abolição da escravidão negra; contudo, no Norte é viva e vital a escravidão a que estão submetidos os trabalhadores assalariados, aquela que alguns anos depois ‘‘O Capital’’, retomando a declaração do Congresso operário geral de Baltimore, define como a ‘escravidão capitalista’.

O fato é que a ‘escravidão indireta dos brancos da Inglaterra’ não é a mesma ‘escravidão direta dos negros do outro lado do Atlâtico; o ‘trabalho forçado imediato’ a que está submetido o escravo não é assimilável à indireta coerção econômica que pesa sobre o trabalhador assalariado, sobe o ‘trabalhador’ pelo menos formalmente ‘livre’”. Sendo assim as condições dos povos oprimidos em tempos coloniais até hoje lutam por sua emancipação real, mas enquanto houver capitalismo teremos só “catástrofe da civilização”.

A afirmação de Losurdo, se valendo do revolucionário, que eu quero levantar é: “ a escravidão mascarada e comuflada, identificada e denunciada na metrópole, é explicitamente contraposta à escravidão ‘sem máscara’ imposta ao ‘novo mundo’.” Losurdo ainda escreve: “Quando se refere ao proletário, a expressão-chave usada é: ‘reconhecido como pessoa’. Mesmo exposto a uma precariedade que torna problemática sua sobrevivência que é ignota ao escravo, o proletário não deve mais sofrer a total reificação de quem é considerado e tratado como mera mercadoria. As relativas vantagens econômicas das quais o escravo pode dispor pouco ou nada pesam em relação ao primeiro (modesto) resultado conseguido pelo proletariado em sua luta pelo reconhecimento.

Sem me estender muito ainda neste ponto, lembro também das contribuições de Vânia Bambirra e os outros camaradas que desenvolveram a Teoria Marxista da Dependência. Pensam principalmente na América Latina em suas análises, mas a síntese de que os países na “periferia do capital” não conseguem fazer suas auto determinações econômico-políticas serve também para pensarmos a África. Ou seja, a teoria argumenta sobre a integração dos países da “periferia do capital” ao sistema capitalista mundial somente através de produtos primários exportadores. Além de toda a cadeia produtiva, desenvolver indústrias, criar sistemas de soberanias nacionais e gerar relações econômicas internas passa pelos entraves, bloqueios, golpes e autorizações dos países ditos “desenvolvidos” dos países do centro do capital. Sendo assim, os agricultores da Costa do cacau, em todo seu processo desumanizante tem muitos desafios pela frente, não basta criar uma empresa de cacau orgânico. É imprescindível a luta de classes contra todo o sistema capitalista, enfrentar a burguesia interna e externa, lutar por condições de trabalho, pelas relações de soberania nacional e econômicas de seu país. O primeiro passo dessa luta é melhorar as condições de trabalho e aumentar o valor da mão de obra. É imprescindível enfrentar as companhias  Mars, Nestlé, e The Hershey Company que a exploram.

Por fim, cito Lenin no “Relatório sobre a situação internacional” em 1920 que já denunciava a Primeira Guerra Mundial e seu caráter de disputa imperialista por meio de uma conta simples de quantas pessoas sofreram com a “agudização incomensuravelmente maior de todas as contradições capitalistas”.“ A guerra foi feita para determinar qual dos dois reduzidos grupos dos maiores Estados – o inglês ou o alemão – obteria a possibilidade e o direito de saquear, estrangular e explorar toda a Terra.” Para os derrotados da guerra na europa “A guerra lançou de repente uns 250 milhões de habitantes da Terra para uma situação equivalente à colonial” e para o resto do mundo “pelo menos 1250 milhões de seres humanos estão submetidos à opressão colonial”. Isto é, 70% da População mundial está nos países subjugados pelos “bandidos da finança” condenados a servirem de colônias expropriadas. “Vemos o total desacordo que reina no topo entre este ínfimo punhado de países mais ricos. É impossível a 1250 milhões de pessoas, que representam 70% da população da Terra, viver nas condições de subjugação que o capitalismo «avançado» e civilizado quer impor-lhes.”.

De Lenin pra cá, as economias se complexificaram e a população subjugada aumentou. Não obstante, há pessoas, seres humanos, que trabalham e ainda não são de fato humanas. Há parte da população mundial ainda tratada como bicho, como um ser eliminável, a parte do mínimo socialmente aceito como digno. Até porque o “socialmente aceito” perpassa por dividir a sociedade com fascistas, com a burguesia e todo o projeto degradante de humanidade.

Esta contradição capitalista impregnada nas barras de chocolates se repete nas demais safras e relações comerciais pelo globo. O café tão ligado a escravidão brasileira ainda tem suas produções no sistema escravocrata: seis multinacionais foram denunciadas por financiar trabalho escravo em fazendas de café no Brasil. São elas: Nestlé, Jacobs Douwe Egberts, McDonald ‘s, Dunkin’ Donuts, Starbucks e Illy. Em 2018, o cenário de trabalho escravo foi o pior nos últimos 15 anos. Imagine no atual momento brasileiro.

Mas o entrelaçamento trágico Brasil-Costa do Marfim também é com o cacau. A famosa Costa do Cacau brasileira fica localizada na Bahia. Para conhecer mais as histórias de exploração da mão de obra, trabalho escravo e condição social do ciclo do Cacau brasileiro leia Jorge Amado. O escritor membro do PCB escreveu “Cacau” e “Gabriela” obras que falam com mais riqueza de detalhes da condição de trabalho ou da localidade.

Se você não sabe onde é a costa do cacau, basta ler os relatórios do Ministério Público do Trabalho, a famosa “Lista Suja do Trabalho”, na qual reúne os tantos empregadores de mão de obra escrava. Não por coincidência são de maioria ligados à agropecuária, criação de boi e cultivo de milho, cacau e café nas cidades Uruçuca, Cardeal da Silva, Vitória da Conquista, Serrinha, Una, Presidente Jânio Quadros, São José do Jacuípe, Camaçari, Riachão das Neves e Ilhéus.

Entre julho de 2017 e junho de 2018, a empresa Papel Social, contratada pela OIT e MPT, foi visitar os principais pólos brasileiros de cacau, Bahia e Pará. Segundo o Relatório, cerca de oito mil crianças e adolescentes trabalham em plantações de cacau no Brasil. Verificou-se também que os municípios produtores de cacau têm o IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano) inferior às médias estadual e nacional, o que ilustra a vulnerabilidade de sua população.

 

Para fechar essa epopeia do dinheiro, venho contar sobre as mulheres que venceram alguns conflitos por terras. Luta Tupinambá por demarcação de terra no Sul da Bahia ganha espaço em livros e quadrinhos. “O livro surgiu do desejo de comunicar as histórias dos tupinambá. Seja em relação a sua luta pela recuperação do território, sua religiosidade e aspectos de sua memória e sua história”, explica a roteirista Daniela Fernandes Alarcon. “Os donos da terra” é a versão HQ e “O retorno da terra: As retomadas na aldeia tupinambá da Serra do Padeiro, Sul da Bahia”, a documentação histórica em livro.

 

Nesta região, temos a reserva indígena Caramuru Paraguassu, uma das mais antigas do Estado da Bahia, foi criada pelo Serviço de Proteção ao Índio, em 1926, em terras devolutas do Estado da Bahia, para “gozo dos índios Pataxós e Tupinambás” (Lei Estadual nº 1916…)” de 11/08/1926. Nela viviam tradicionalmente os Pataxó Hãhãhãe e Baneã, conforme preconiza a tradição tradicional”. Entre 1936 e 1937, o território foi demarcado. Até os anos 1970, fazendeiros de cacau e gado promoveram invasões da reserva, ocasionando a expulsão de pelo menos 95% da população original dos Pataxó Hã-hã-hãe do local. Entre 1976 e 1982, o governo do Estado da Bahia extinguiu a reserva e iniciou a emissão de títulos em favor dos invasores.

 

Os Pataxó Hã-hã-hãe, da Terra Indígena Caramuru Paraguassu, localizada nos municípios de Pau Brasil, Camacã e Itaju do Colônia, estão há 26 anos tentando reaver suas terras tradicionais através de uma ação de nulidade de títulos impetrada junto à justiça federal. Após duas décadas de espera, esta ação está para ser finalmente julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Durante esse tempo os índios Pataxó têm enfrentado a oposição de diversos fazendeiros da região, contrários à retomada das terras pelos povos indígenas. A Fundação Nacional do Índio (Funai) já indenizou cerca de um terço dos fazendeiros pelas benfeitorias de boa fé encontradas dentro dos 54.100 hectares da terra indígena Pataxó. Contudo, uma parcela dos cerca de 60 grandes fazendeiros que possuem terras na área demarcada, se recusa a sair delas ou a negociar qualquer indenização. Organizados em torno do Sindicato Rural de Pau Brasil, eles são acusados de promoverem atentados, ameaças a militantes e vários assassinatos de lideranças indígenas.

 

Para fechar o texto, volto em Lenin o revolucionário russo que tanto criticou o imperialismo e a expansão capitalista. Ele critica a posição dos operários europeus lutando por questões minimalistas ou imediatistas. Losurdo conclui em um de seus capítulos que “concentrando-se exclusivamente sobre a ‘concretude’ do aumento salarial ou da melhora das condições de trabalho, o primeiro fecha os olhos sobre a opressão contra os povos coloniais, aliás, não poucas vezes, acaba participando da arrogância chauvinista da burguesia da metrópole capitalista; continua dando prova de subalternidade também no curso da luta hegemônica entre grandes potências e na mesma guerra imperialista”. Ou seja, não há possibilidade de “fim das classes” ou vitória revolucionárias sem que “sem defender a igualdade das diversas nações”. O que define a consciência de classe revolucionária é justamente a atenção para todas as relações de coerção que constituem o sistema capitalista e imperialista.

 

O chocolate que é famoso por ser ‘suíço’ ou ‘tipo belga’ não tem nesses países uma semente plantada de cacau. Novos acordos comerciais estão em vias de explorar a mão de obra e as reservas naturais da Indonésia, a busca pelo óleo de palma também coloca novos peões no tabuleiro da rota de exploração do chocolate. Nos unimos a todas as lutas! Não só do fim da escravidão, mas do combate de toda a desumanização que o trabalho assalariado nos provoca. Em Gana ou na Bahia, a raça humana só se tornará livre em outro modelo de sociedade. Neste feriado católico, não compre chocolate. Compre livros na livraria Casa da Árvore.

Ciclo do Chocolate, Doce para quem pode comprar, amargo para quem trabalha.

 

Em 6 de Março 1957, “Costa do Ouro” conquista sua independência, e os descendentes Axante e Bono trocam o nome de sua nação para “Gana” (guerreiro em língua local). Sendo o primeiro da porção subsaariana, esse acontecimento é importante para as lutas de independência africana e fundamental para as correlações de força. Duas ex-colônias não trocaram seu nome em suas lutas por independência: Costa do Marfim e Brasil. Essas e outras “semelhanças” trágicas entre essas nações a partir da invasão europeia serão o tema do texto subsequente.

 

A tradição católica, espalhada com o colonialismo, nos deu por exemplo as datas de: carnaval, a quaresma e a Páscoa. A “semana santa” é parte do calendário nacional dos dois países. Tal tradição exótica não era praticada pelos povos autóctones africanos e ameríndios. O processo de “civilização” do capitalismo não só apagou as tradições originárias como batizou os países com os produtos extraídos de suas terras com tanta crueldade e extermínio. O território foi reduzido à extração de Pau Brasil e dentes de elefantes enquanto chacinava e/ou escravizava seus povos.

 

Ainda sobre a tradição católica/mercadológica, o domingo de Páscoa é o dia de dar ovos de chocolate. O chocolate vem do cacau que é originário da bacia amazônica, mas foi “descoberto” pelos europeus na América Central em seu processo de colonização. O cacau já era usado em bebidas e rituais na Mesoamérica, entretanto atribuem a popularização do chocolate e sua forma de doce ao suíço Henri Nestlé (1814-1890). Sendo assim, as plantações de cacau na África só começaram a se expandir no período de neocolonialismo e da intensificação da exploração das então colônias africanas. E mesmo com a independência declarada, o sistema capitalista e capitalista dependente mantém os países africanos como os maiores produtores de cacau do planeta e as multinacionais recebem os lucros do chocolate.

 

Costa do Marfim e Gana, de cujas costas saem por mar mais de 60% do cacau consumido em todo o planeta, tentam disputar com as multinacionais uma valorização de sua mão de obra. Enquanto as plantações batem recorde de safras, os trabalhadores não recebem 2.300 euros por tonelada e a indústria fatura 90 bilhões de euros por ano, dos quais os distribuidores e fabricantes ficam com quase 80% do lucro, já os agricultores com 4%. Segundo o Banco Mundial (2017), 55% dos agricultores da Costa do Marfim vivem com cerca de 1,15 € por dia, abaixo da linha de pobreza absoluta. O cacau hoje é a base da economia marfinense com 15% do PIB (Produto Interno Bruto), compondo entre 30% e 50% da receita de exportação do país e com ⅔ da população tendo sua renda ligada a esta atividade agrícola.

 

Neste cenário de miséria e interdependência com essa atividade econômica, constantemente há denuncias de trabalho escravo, de violações de direitos humanos e trabalho infantil. De acordo com o relatório recente da Organização Internacional do Trabalho (dados de 2016), 152 milhões de crianças entre as idades de 5 e 17 anos estão sujeitas ao trabalho infantil. Aproximadamente, 70% desse número corresponde ao emprego da mão de obra infantil no setor agrícola. Estima-se que só no continente africano uma a cada cinco crianças africanas estejam envolvidas com o trabalho infantil. (OIT, 2017).

 

Essa realidade é ainda mais intensa na Costa do Marfim, onde pelo menos 3,65 milhões de crianças vivem na zona rural. Dessas crianças, 98% representam aquelas que trabalham nas plantações de cacau e acredita-se que pelo menos a metade delas trabalhe de forma ilegal e sob condições precárias que envolvem até 12 horas de trabalho e nenhuma proteção ou legislação contra acidentes, agressões físicas e alimentação indevida. Além do trabalho ilegal, dados indicam que ainda existem crianças que trabalham nas plantações sob regime de escravidão – pelo menos 12 mil crianças se encontram nessa situação, algumas até ficam presas em cativeiros durante a noite para não poderem fugir. (LUSA, 2016; AFRICA/COSTA DO MARFIM, 2016). Sem contar o tráfico de pessoas dos países vizinhos como: Benin, Mali, Camarões, Togo, para trabalhar nas mesmas condições.

Pensem comigo, a gente aprende que certas coisas são naturais. Que o ser humano é ser humano e deve ser tratado como tal. Isso é ensinado na escola, está escrito em declarações de direitos universais e é a grande bandeira da revolução francesa. Mas é uma grande balela. A igualdade, fraternidade e irmandade é apenas para a burguesia, a classe trabalhadora, povos além Europa, racializados, não o são. Marx descreve o processo de desumanização e Losurdo frequentemente o usa. Essa luta pelo reconhecimento da humanidade é “luta de classes”. Em seu livro “a luta de classes”, Losurdo se vale dos dois revolucionários, defensores da abolição da escravatura estadunidense, para escrever: “Desde o início das hostilidades, eles solicitam combater contra o Sul uma guerra revolucionária pela abolição da escravidão negra; contudo, no Norte é viva e vital a escravidão a que estão submetidos os trabalhadores assalariados, aquela que alguns anos depois ‘‘O Capital’’, retomando a declaração do Congresso operário geral de Baltimore, define como a ‘escravidão capitalista’.

O fato é que a ‘escravidão indireta dos brancos da Inglaterra’ não é a mesma ‘escravidão direta dos negros do outro lado do Atlâtico; o ‘trabalho forçado imediato’ a que está submetido o escravo não é assimilável à indireta coerção econômica que pesa sobre o trabalhador assalariado, sobe o ‘trabalhador’ pelo menos formalmente ‘livre’”. Sendo assim as condições dos povos oprimidos em tempos coloniais até hoje lutam por sua emancipação real, mas enquanto houver capitalismo teremos só “catástrofe da civilização”.

A afirmação de Losurdo, se valendo do revolucionário, que eu quero levantar é: “ a escravidão mascarada e comuflada, identificada e denunciada na metrópole, é explicitamente contraposta à escravidão ‘sem máscara’ imposta ao ‘novo mundo’.” Losurdo ainda escreve: “Quando se refere ao proletário, a expressão-chave usada é: ‘reconhecido como pessoa’. Mesmo exposto a uma precariedade que torna problemática sua sobrevivência que é ignota ao escravo, o proletário não deve mais sofrer a total reificação de quem é considerado e tratado como mera mercadoria. As relativas vantagens econômicas das quais o escravo pode dispor pouco ou nada pesam em relação ao primeiro (modesto) resultado conseguido pelo proletariado em sua luta pelo reconhecimento.

Sem me estender muito ainda neste ponto, lembro também das contribuições de Vânia Bambirra e os outros camaradas que desenvolveram a Teoria Marxista da Dependência. Pensam principalmente na América Latina em suas análises, mas a síntese de que os países na “periferia do capital” não conseguem fazer suas auto determinações econômico-políticas serve também para pensarmos a África. Ou seja, a teoria argumenta sobre a integração dos países da “periferia do capital” ao sistema capitalista mundial somente através de produtos primários exportadores. Além de toda a cadeia produtiva, desenvolver indústrias, criar sistemas de soberanias nacionais e gerar relações econômicas internas passa pelos entraves, bloqueios, golpes e autorizações dos países ditos “desenvolvidos” dos países do centro do capital. Sendo assim, os agricultores da Costa do cacau, em todo seu processo desumanizante tem muitos desafios pela frente, não basta criar uma empresa de cacau orgânico. É imprescindível a luta de classes contra todo o sistema capitalista, enfrentar a burguesia interna e externa, lutar por condições de trabalho, pelas relações de soberania nacional e econômicas de seu país. O primeiro passo dessa luta é melhorar as condições de trabalho e aumentar o valor da mão de obra. É imprescindível enfrentar as companhias  Mars, Nestlé, e The Hershey Company que a exploram.

Por fim, cito Lenin no “Relatório sobre a situação internacional” em 1920 que já denunciava a Primeira Guerra Mundial e seu caráter de disputa imperialista por meio de uma conta simples de quantas pessoas sofreram com a “agudização incomensuravelmente maior de todas as contradições capitalistas”.“ A guerra foi feita para determinar qual dos dois reduzidos grupos dos maiores Estados – o inglês ou o alemão – obteria a possibilidade e o direito de saquear, estrangular e explorar toda a Terra.” Para os derrotados da guerra na europa “A guerra lançou de repente uns 250 milhões de habitantes da Terra para uma situação equivalente à colonial” e para o resto do mundo “pelo menos 1250 milhões de seres humanos estão submetidos à opressão colonial”. Isto é, 70% da População mundial está nos países subjugados pelos “bandidos da finança” condenados a servirem de colônias expropriadas. “Vemos o total desacordo que reina no topo entre este ínfimo punhado de países mais ricos. É impossível a 1250 milhões de pessoas, que representam 70% da população da Terra, viver nas condições de subjugação que o capitalismo «avançado» e civilizado quer impor-lhes.”.

De Lenin pra cá, as economias se complexificaram e a população subjugada aumentou. Não obstante, há pessoas, seres humanos, que trabalham e ainda não são de fato humanas. Há parte da população mundial ainda tratada como bicho, como um ser eliminável, a parte do mínimo socialmente aceito como digno. Até porque o “socialmente aceito” perpassa por dividir a sociedade com fascistas, com a burguesia e todo o projeto degradante de humanidade.

Esta contradição capitalista impregnada nas barras de chocolates se repete nas demais safras e relações comerciais pelo globo. O café tão ligado a escravidão brasileira ainda tem suas produções no sistema escravocrata: seis multinacionais foram denunciadas por financiar trabalho escravo em fazendas de café no Brasil. São elas: Nestlé, Jacobs Douwe Egberts, McDonald ‘s, Dunkin’ Donuts, Starbucks e Illy. Em 2018, o cenário de trabalho escravo foi o pior nos últimos 15 anos. Imagine no atual momento brasileiro.

Mas o entrelaçamento trágico Brasil-Costa do Marfim também é com o cacau. A famosa Costa do Cacau brasileira fica localizada na Bahia. Para conhecer mais as histórias de exploração da mão de obra, trabalho escravo e condição social do ciclo do Cacau brasileiro leia Jorge Amado. O escritor membro do PCB escreveu “Cacau” e “Gabriela” obras que falam com mais riqueza de detalhes da condição de trabalho ou da localidade.

Se você não sabe onde é a costa do cacau, basta ler os relatórios do Ministério Público do Trabalho, a famosa “Lista Suja do Trabalho”, na qual reúne os tantos empregadores de mão de obra escrava. Não por coincidência são de maioria ligados à agropecuária, criação de boi e cultivo de milho, cacau e café nas cidades Uruçuca, Cardeal da Silva, Vitória da Conquista, Serrinha, Una, Presidente Jânio Quadros, São José do Jacuípe, Camaçari, Riachão das Neves e Ilhéus.

Entre julho de 2017 e junho de 2018, a empresa Papel Social, contratada pela OIT e MPT, foi visitar os principais pólos brasileiros de cacau, Bahia e Pará. Segundo o Relatório, cerca de oito mil crianças e adolescentes trabalham em plantações de cacau no Brasil. Verificou-se também que os municípios produtores de cacau têm o IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano) inferior às médias estadual e nacional, o que ilustra a vulnerabilidade de sua população.

 

Para fechar essa epopeia do dinheiro, venho contar sobre as mulheres que venceram alguns conflitos por terras. Luta Tupinambá por demarcação de terra no Sul da Bahia ganha espaço em livros e quadrinhos. “O livro surgiu do desejo de comunicar as histórias dos tupinambá. Seja em relação a sua luta pela recuperação do território, sua religiosidade e aspectos de sua memória e sua história”, explica a roteirista Daniela Fernandes Alarcon. “Os donos da terra” é a versão HQ e “O retorno da terra: As retomadas na aldeia tupinambá da Serra do Padeiro, Sul da Bahia”, a documentação histórica em livro.

 

Nesta região, temos a reserva indígena Caramuru Paraguassu, uma das mais antigas do Estado da Bahia, foi criada pelo Serviço de Proteção ao Índio, em 1926, em terras devolutas do Estado da Bahia, para “gozo dos índios Pataxós e Tupinambás” (Lei Estadual nº 1916…)” de 11/08/1926. Nela viviam tradicionalmente os Pataxó Hãhãhãe e Baneã, conforme preconiza a tradição tradicional”. Entre 1936 e 1937, o território foi demarcado. Até os anos 1970, fazendeiros de cacau e gado promoveram invasões da reserva, ocasionando a expulsão de pelo menos 95% da população original dos Pataxó Hã-hã-hãe do local. Entre 1976 e 1982, o governo do Estado da Bahia extinguiu a reserva e iniciou a emissão de títulos em favor dos invasores.

 

Os Pataxó Hã-hã-hãe, da Terra Indígena Caramuru Paraguassu, localizada nos municípios de Pau Brasil, Camacã e Itaju do Colônia, estão há 26 anos tentando reaver suas terras tradicionais através de uma ação de nulidade de títulos impetrada junto à justiça federal. Após duas décadas de espera, esta ação está para ser finalmente julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Durante esse tempo os índios Pataxó têm enfrentado a oposição de diversos fazendeiros da região, contrários à retomada das terras pelos povos indígenas. A Fundação Nacional do Índio (Funai) já indenizou cerca de um terço dos fazendeiros pelas benfeitorias de boa fé encontradas dentro dos 54.100 hectares da terra indígena Pataxó. Contudo, uma parcela dos cerca de 60 grandes fazendeiros que possuem terras na área demarcada, se recusa a sair delas ou a negociar qualquer indenização. Organizados em torno do Sindicato Rural de Pau Brasil, eles são acusados de promoverem atentados, ameaças a militantes e vários assassinatos de lideranças indígenas.

 

Para fechar o texto, volto em Lenin o revolucionário russo que tanto criticou o imperialismo e a expansão capitalista. Ele critica a posição dos operários europeus lutando por questões minimalistas ou imediatistas. Losurdo conclui em um de seus capítulos que “concentrando-se exclusivamente sobre a ‘concretude’ do aumento salarial ou da melhora das condições de trabalho, o primeiro fecha os olhos sobre a opressão contra os povos coloniais, aliás, não poucas vezes, acaba participando da arrogância chauvinista da burguesia da metrópole capitalista; continua dando prova de subalternidade também no curso da luta hegemônica entre grandes potências e na mesma guerra imperialista”. Ou seja, não há possibilidade de “fim das classes” ou vitória revolucionárias sem que “sem defender a igualdade das diversas nações”. O que define a consciência de classe revolucionária é justamente a atenção para todas as relações de coerção que constituem o sistema capitalista e imperialista.

 

O chocolate que é famoso por ser ‘suíço’ ou ‘tipo belga’ não tem nesses países uma semente plantada de cacau. Novos acordos comerciais estão em vias de explorar a mão de obra e as reservas naturais da Indonésia, a busca pelo óleo de palma também coloca novos peões no tabuleiro da rota de exploração do chocolate. Nos unimos a todas as lutas! Não só do fim da escravidão, mas do combate de toda a desumanização que o trabalho assalariado nos provoca. Em Gana ou na Bahia, a raça humana só se tornará livre em outro modelo de sociedade. Neste feriado católico, não compre chocolate. Compre livros na livraria Casa da Árvore.

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