8M, 14M e todos os dias

8M, 14M e todos os dias

8M, 14M e todos os dias.

Livraria Casa da Árvore – Pedro Santos – Março 10,2021

Aproveito o mês de março para lembrar algumas datas importantes. Mês com efemérides de luta, lágrimas e conquistas.

O 8 de Março é a data para negritar as lutas feministas através do mundo. Infelizmente devido a pandemia não teremos As mulheres Zapatistas se reunindo no Chiapas; nem teremos os panos verdes argentinos comemorando a conquista recente de decisão sobre a gravidez; tão pouco as mulheres por todo o planeta em praças públicas. Não teremos no dia 14 de março velas acesas para Marielle Franco. Nem os bairros sul africanos vão lembrar os seus tombados em manifestações pelo apartheid. O isolamento se faz necessário assim como a lembrança das lutas. Vou começar lembrando dos nossos: “Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta.”

14 de Março é uma das datas mais traumáticas para os cariocas/brasileiros. A vida de Marielle Francisco da Silva foi brutalmente interrompida. Marielle foi uma socióloga e política brasileira. Mulher preta da Maré (complexo de favelas carioca), de esquerda filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), elegeu-se vereadora do Rio de Janeiro como a quinta mais votada e foi morta pela sua atuação combativa na assembleia, denunciando a violência policial, abuso de autoridade da força estatal. Em 2018, Marielle e seu motorista Anderson Gomes foram baleados e até hoje segue a pergunta sem resposta: “Quem mandou matar Marielle Franco?”. Enquanto escrevo este texto segue para o debate a criação do “dia Marielle Franco”. Proposta tem como objetivo promover a discussão sobre a violência política contra mulheres negras, LGBTQIA+ e periféricas.

No dia 21 de Março de 1960, ocorreu no bairro de Sharpeville, na cidade de Johanesburgo, na África do Sul, um protesto, realizado pelo Congresso Pan-Africano (PAC). O protesto pregava contra a Lei do Passe, que obrigava os negros da África do Sul a usarem uma caderneta na qual estava escrito aonde eles poderiam ir. O governo racista e segregacionista reprimiu fortemente a manifestação. Metralhadoras mataram 69 pessoas e deixaram ainda 180 feriados a mais. Dia 21 passou a ser o Dia Internacional Contra a Descriminação Racial. E segue sendo lembrado e levantado após o fim formal do Apartheid.

Passando para datas mais gerais, o 8 de Março tem suas origens nas lutas das mulheres por direitos, sufrágio e reconhecimento na virada do séc XIX para o XX. Clara Zetkin e as sufragistas feministas  internacionais foram fundamentais para a ideia de um dia, além das greves e passeatas de março na Rússia. As greves das mulheres foram imprescindíveis para a construção da revolução de outubro de 1917. O mundo não seria mais o mesmo, as mulheres soviéticas conquistaram votos e participação política não só para elas, como também abriu caminho para todo o mundo. (EUA só teria voto feminino em 1920).

Outra data que devemos reivindicar é o 2 de Março, dia da mulher angolana. Um dos principais nomes é o de Deolinda Rodrigues mártir da libertação Angolana, ela foi membro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), e co-fundadora da sua secção feminina, a Organização da Mulher Angolana (OMA).

O Dia da Mulher Moçambicana é um feriado oficial em Moçambique, celebrado a 7 de Abril em homenagem a Josina Machel, membro da FRELIMO foi uma das fundadoras e liderou o Destacamento Feminino – uma unidade dedicada ao treino militar e educação política. Em 1969, aos 24 anos, tornou-se chefe do Departamento de Assuntos Sociais e foi também chefe da Seção da Mulher no Departamento de Relações Exteriores da Frente de Libertação.

O Dia da Mulher Africana foi instituído a 31 de Julho de 1962, em Dar-Es-Salaam, Tanzânia, por 14 países e oito Movimentos de Libertação Nacional, na Conferência das Mulheres Africanas, quando foi criada organização Panafricana das Mulheres com o objetivo de discutir o papel da mulher na reconstrução da África.

O Dia da Mulher Negra é o dia 25 de julho, instituído pelo governo do Brasil, que por sua vez é inspirado no dia da mulher afro-latino-caribenha (31 de julho). Data em homenagem a Tereza de Bengela, Tereza foi lider do quilombo no início dos anos 1750, e, sob sua liderança, a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas. E por sua vez o dia da Mulher Afro-Latina-Caribenha vem do encontro de mulheres na República Dominicana em 1992, sua homenagem às lutas das mulheres negras contra a opressão de gênero, a exploração e o racismo.

Para fechar as datas, convoco o dia 5 de setembro, o qual é tido como  o Dia Internacional da Mulher Indígena. A data é para memoriar Bartolina Sisa, uma mulher quéchua que dedicou sua vida em defesa de seu povo. data de sua morte na rebelião anticolonial de Túpaj Katari, no Alto Peru foi eternizada. Esta data junta as datas gerais das lutas coletivas e as datas que surgem a partir de uma lágrima específica, para mártires ou massacres.

Para o 8M e para um ano inteiro de lutas pelas feministas, pela igualdade e pelos direitos, leiam as mulheres revolucionárias que enfrentaram e enfrentam o patriarcado e o capitalismo.

Dandara – Figura central na organização e resistência do Quilombo dos Palmares. Única com relatos da tradição oral, não tem escritos ou publicações em primeira pessoa.

Pagu – escritora, poeta, tradutora, jornalista e comunista. Modernista dedicou sua obra à defesa da mulher pobre e criticava o papel conservador feminino na sociedade.

Simone de Beauvoir – Autora do “O Segundo Sexo”, livro fundamental para o pensamento feminista europeu. Simone mapeou as formas de opressão masculina, falou sobre patriarcado e inferiorização da mulher, questionou o casamento e por aí vai.

Nadejda Krupskaia – Revolucionária bolchevique e pedagoga russa. Atuante e importante não só na revolução, como na campanha contra o analfabetismo pós revolução.

Lélia Gonzalez – intelectual, autora, política, professora, filósofa e antropóloga brasileira. Foi pioneira nos estudos sobre Cultura Negra no Brasil e co-fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ), do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Olodum.

Angela Davis – Falam tudo sobre a Angela Davis menos que ela é comunista. Então, comunista, professora e filósofa. Membro do Partido Comunista dos EUA e durante um tempo participou do Partido dos Panteras Negras. Ganhou visibilidade por sua militância pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial nos Estados Unidos, referência entre os marxistas e pela perseguição que sofreu do governo estaunidense.

Rosa Luxemburgo – Economista marxista polaco-alemã. Tornou-se mundialmente conhecida pela militância revolucionária ligada à Social-Democracia da Polônia (SDKP), ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e ao Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD). Participou da fundação do grupo de tendência marxista do SPD, que viria a se tornar mais tarde o Partido Comunista da Alemanha (KPD). Morta pelo fascismo Alemão.

Por último, recomendo a leitura de “Um feminismo descolonial” – Françoise Vergès. Francesa criada na Ilha da Reunião, território francês ultramarino, a autora lança mão de uma terminologia nova para descortinar a realidade das mulheres “racializadas”, empregadas domésticas e faxineiras provenientes dos países do “Sul global”, que limpam o mundo. Ela reivindica “um feminismo decolonial”, aberto a questionamentos, análises e mudanças, mas radicalmente antirracista, anticapitalista e anti-imperialista. Poder de sua crítica é justamente descontruindo o feminismo liberal, que no passado defendia o sufrágio feminino mesmo com a manutenção da escravidão, principalmente, mas não só nas colônias. Além do atual que cai nas ciladas de empoderamento individual sem enfrentar a estrutura da sociedade capitalista e as condições desumanas que as mulheres pretas do “sul global” são submetidas diariamente. Não esqueçamos que a primeira vítima de Covid no Brasil foi uma empregada doméstica contaminada pelo patrão.

Leiam Conceição Evaristo, Mãe Flávia Pinto, Carolina Maria de Jesus e Renata Souza na livraria Casa da Árvore.

( Pedro Santos é professor de Educação Física em Paraty, militante negro e podcaster do “Um programa qualquer” )

Aproveito o mês de março para lembrar algumas datas importantes. Mês com efemérides de luta, lágrimas e conquistas.

 

O 8 de Março é a data para negritar as lutas feministas através do mundo. Infelizmente devido a pandemia não teremos As mulheres Zapatistas se reunindo no Chiapas; nem teremos os panos verdes argentinos comemorando a conquista recente de decisão sobre a gravidez; tão pouco as mulheres por todo o planeta em praças públicas. Não teremos no dia 14 de março velas acesas para Marielle Franco. Nem os bairros sul africanos vão lembrar os seus tombados em manifestações pelo apartheid. O isolamento se faz necessário assim como a lembrança das lutas. Vou começar lembrando dos nossos: “Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta.”

 

14 de Março é uma das datas mais traumáticas para os cariocas/brasileiros. A vida de Marielle Francisco da Silva foi brutalmente interrompida. Marielle foi uma socióloga e política brasileira. Mulher preta da Maré (complexo de favelas carioca), de esquerda filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), elegeu-se vereadora do Rio de Janeiro como a quinta mais votada e foi morta pela sua atuação combativa na assembleia, denunciando a violência policial, abuso de autoridade da força estatal. Em 2018, Marielle e seu motorista Anderson Gomes foram baleados e até hoje segue a pergunta sem resposta: “Quem mandou matar Marielle Franco?”. Enquanto escrevo este texto segue para o debate a criação do “dia Marielle Franco”. Proposta tem como objetivo promover a discussão sobre a violência política contra mulheres negras, LGBTQIA+ e periféricas.

 

No dia 21 de Março de 1960, ocorreu no bairro de Sharpeville, na cidade de Johanesburgo, na África do Sul, um protesto, realizado pelo Congresso Pan-Africano (PAC). O protesto pregava contra a Lei do Passe, que obrigava os negros da África do Sul a usarem uma caderneta na qual estava escrito aonde eles poderiam ir. O governo racista e segregacionista reprimiu fortemente a manifestação. Metralhadoras mataram 69 pessoas e deixaram ainda 180 feriados a mais. Dia 21 passou a ser o Dia Internacional Contra a Descriminação Racial. E segue sendo lembrado e levantado após o fim formal do Apartheid.

 

 

 

 

 

 

Passando para datas mais gerais, o 8 de Março tem suas origens nas lutas das mulheres por direitos, sufrágio e reconhecimento na virada do séc XIX para o XX. Clara Zetkin e as sufragistas feministas  internacionais foram fundamentais para a ideia de um dia, além das greves e passeatas de março na Rússia. As greves das mulheres foram imprescindíveis para a construção da revolução de outubro de 1917. O mundo não seria mais o mesmo, as mulheres soviéticas conquistaram votos e participação política não só para elas, como também abriu caminho para todo o mundo. (EUA só teria voto feminino em 1920).

 

Outra data que devemos reivindicar é o 2 de Março, dia da mulher angolana. Um dos principais nomes é o de Deolinda Rodrigues mártir da libertação Angolana, ela foi membro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), e co-fundadora da sua secção feminina, a Organização da Mulher Angolana (OMA).

 

O Dia da Mulher Moçambicana é um feriado oficial em Moçambique, celebrado a 7 de Abril em homenagem a Josina Machel, membro da FRELIMO foi uma das fundadoras e liderou o Destacamento Feminino – uma unidade dedicada ao treino militar e educação política. Em 1969, aos 24 anos, tornou-se chefe do Departamento de Assuntos Sociais e foi também chefe da Seção da Mulher no Departamento de Relações Exteriores da Frente de Libertação.

 

O Dia da Mulher Africana foi instituído a 31 de Julho de 1962, em Dar-Es-Salaam, Tanzânia, por 14 países e oito Movimentos de Libertação Nacional, na Conferência das Mulheres Africanas, quando foi criada organização Panafricana das Mulheres com o objetivo de discutir o papel da mulher na reconstrução da África.

O Dia da Mulher Negra é o dia 25 de julho, instituído pelo governo do Brasil, que por sua vez é inspirado no dia da mulher afro-latino-caribenha (31 de julho). Data em homenagem a Tereza de Bengela, Tereza foi lider do quilombo no início dos anos 1750, e, sob sua liderança, a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas. E por sua vez o dia da Mulher Afro-Latina-Caribenha vem do encontro de mulheres na República Dominicana em 1992, sua homenagem às lutas das mulheres negras contra a opressão de gênero, a exploração e o racismo.

 

Para fechar as datas, convoco o dia 5 de setembro, o qual é tido como  o Dia Internacional da Mulher Indígena. A data é para memoriar Bartolina Sisa, uma mulher quéchua que dedicou sua vida em defesa de seu povo. data de sua morte na rebelião anticolonial de Túpaj Katari, no Alto Peru foi eternizada. Esta data junta as datas gerais das lutas coletivas e as datas que surgem a partir de uma lágrima específica, para mártires ou massacres.

 

Para o 8M e para um ano inteiro de lutas pelas feministas, pela igualdade e pelos direitos, leiam as mulheres revolucionárias que enfrentaram e enfrentam o patriarcado e o capitalismo.

 

Dandara – Figura central na organização e resistência do Quilombo dos Palmares. Única com relatos da tradição oral, não tem escritos ou publicações em primeira pessoa.

 

Pagu – escritora, poeta, tradutora, jornalista e comunista. Modernista dedicou sua obra à defesa da mulher pobre e criticava o papel conservador feminino na sociedade.

 

Simone de Beauvoir – Autora do “O Segundo Sexo”, livro fundamental para o pensamento feminista europeu. Simone mapeou as formas de opressão masculina, falou sobre patriarcado e inferiorização da mulher, questionou o casamento e por aí vai.

 

Nadejda Krupskaia – Revolucionária bolchevique e pedagoga russa. Atuante e importante não só na revolução, como na campanha contra o analfabetismo pós revolução.

 

Lélia Gonzalez – intelectual, autora, política, professora, filósofa e antropóloga brasileira. Foi pioneira nos estudos sobre Cultura Negra no Brasil e co-fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ), do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Olodum.

 

Angela Davis – Falam tudo sobre a Angela Davis menos que ela é comunista. Então, comunista, professora e filósofa. Membro do Partido Comunista dos EUA e durante um tempo participou do Partido dos Panteras Negras. Ganhou visibilidade por sua militância pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial nos Estados Unidos, referência entre os marxistas e pela perseguição que sofreu do governo estaunidense.

 

Rosa Luxemburgo – Economista marxista polaco-alemã. Tornou-se mundialmente conhecida pela militância revolucionária ligada à Social-Democracia da Polônia (SDKP), ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e ao Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD). Participou da fundação do grupo de tendência marxista do SPD, que viria a se tornar mais tarde o Partido Comunista da Alemanha (KPD). Morta pelo fascismo Alemão.

 

Por último, recomendo a leitura de “Um feminismo descolonial” – Françoise Vergès. Francesa criada na Ilha da Reunião, território francês ultramarino, a autora lança mão de uma terminologia nova para descortinar a realidade das mulheres “racializadas”, empregadas domésticas e faxineiras provenientes dos países do “Sul global”, que limpam o mundo. Ela reivindica “um feminismo decolonial”, aberto a questionamentos, análises e mudanças, mas radicalmente antirracista, anticapitalista e anti-imperialista. Poder de sua crítica é justamente descontruindo o feminismo liberal, que no passado defendia o sufrágio feminino mesmo com a manutenção da escravidão, principalmente, mas não só nas colônias. Além do atual que cai nas ciladas de empoderamento individual sem enfrentar a estrutura da sociedade capitalista e as condições desumanas que as mulheres pretas do “sul global” são submetidas diariamente. Não esqueçamos que a primeira vítima de Covid no Brasil foi uma empregada doméstica contaminada pelo patrão.

 

Leiam Conceição Evaristo, Mãe Flávia Pinto, Carolina Maria de Jesus e Renata Souza na livraria Casa da Árvore.

( Pedro Santos é professor de Educação Física em Paraty, militante negro e podcaster do “Um programa qualquer” )

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